Crônica: “Eu pedi amor” - Natália Nodari

12 dezembro 2017

Oi gente!
Essa semana eu li um texto muito bom e que me fez refletir bastante, por isso eu resolvi trazê-lo aqui para vocês e por fim comentar um pouco a minha opinião sobre ele. Ou seja, é uma espécie de resenha sobre essa crônica e também a apresentação para vocês de uma página muito legal e recheada de textos interessantes no Facebook - OSegundoCu






Pedi um amor e ele me deu um bolo mofado. “Eu pedi amor”, disse.

- Isso é amor.
- Mas não vai me fazer mal?
- Talvez.

Olhei e novo e percebi uma larvinha de mosca saindo da cobertura.

- Vai querer ou não? – Ele olhava a larva também.
- Não sei. – A larvinha agora afundava cada vez mais no bolo.
- Eu não vou ficar parado o dia todo aqui, sabe.

Lembrei que não sabia cozinhar e levei o bolo para a casa. Primeiro tentei tirar tudo que se movia na cobertura, mas era impossível . Me contentei em raspar o mofo, fechar os olhos e engolir uma garfada.

Vomitei.

Dormi com o estômago roncando e acordei com dor de barriga dos infernos. Não saí de casa nos próximos três dias: sem amor, não tinha vontade de tomar banho nem de escovar os cabelos. Não queria olhar o céu e nem os olhos das pessoas. No quinto dia sem amor, não quis abrir as pálpebras muito menos as janelas da casa.

Prestes a perder as forças, olhei para a mesa e resolvi tentar de novo. O estômago reclamou, mas não devolveu. O intestino resolveu não opinar. Fui dormir indigesta e ao mesmo tempo aliviada. Pela manhã, as maquiagens do banheiro voltaram a fazer sentido. As roupas no chão pediram para serem penduradas. A maçaneta da porta pedia para ser girada e eu obedeci.

A cada passo, sentia o estômago revirar, mas também sentia que estava viva. Segui na rua disfarçando uns arrotos enquanto olhava vitrines.

À noite, resolvi encarar o bolo de novo.

Ele não pareceu tão ruim quanto no dia anterior. Na verdade, olhando de lado nem dava para ver a parte feia. Segui comento o bolo, segui com o estômago revirado e mais importante: segui com vontade de entrar no ônibus e pagar minhas contas.
Até que o bolo acabou.

Preocupada, fui até ele pedir mais amor. O bolo que ele me entregou estava coberto de moscas.

- Está fedendo demais. – comentei.
- É o que eu tenho.

Não consegui colocar sobre a mesa da sala, já que atraía mais moscas. Botei dentro do forno e cortei uma fatia: o cheiro era insuportável. Tampei o nariz aproximei o garfo da boca, tentando não mastigar as moscas mortas. Sabendo que não poderia ficar sem amor e nem me livrar de todos os insetos, engoli. O estômago não roncou nem a garganta contraiu: já estavam habituados.

Quando o amor acabou, ele me entregou um prato fundo.

- Mas isso é vômito!
- Eu chamo de amor.

Entendi que era bolo vomitado e resolvi guardar na geladeira. No dia seguinte provei uma colherada antes de ir trabalhar, e, para a minha surpresa, eu já não sentia mais gosto de nada. Tomei outra
colherada à noite, pra garantir que iria ter vontade de tomar banho e sair com meus amigos.

No dia seguinte tive um pouco de febre, mas segui dando umas colheradas.
Dois dias depois, a cabeça doeu.

A febre voltou.
A garganta inchou.

Sem conseguir engolir o amor, fechei as cortinas e esperei a morte bater. Quando ouvi o som da campainha, suspirei aliviada.

Mas não era ela
.
Não era alguém que eu conhecesse. Tinha cabelos encaracolados e trazia um prato com uma espécie de massa branca. Leve, limpa, tinha cheiro de primavera.

- Isso não é amor. - Eu disse.
- É amor, sim. - Parecia surpreso.
- Não, não é. - Eu ri.

Os olhos dele encheram de lágrimas. Antes que eu pudesse mudar de ideia, levou a torta de creme embora.

Talvez eu deva aprender a cozinhar sozinha.

- Natália Nodari (@Osegundocu)


Profunda essa crônica, né?
Mas, por quê? Simplesmente porque tantas de nós mulheres vivemos isso, várias vezes durante nossas vidas. Queremos amor e recebemos abuso, como se fosse amor e nos habituamos a isso e um dia (para algumas, pois outras não tem tanta sorte) quando aparece alguém disposto a nos dar amor, de verdade, com uma cara boa, nós já estamos tão acostumadas a receber aquele amor ruim, que não conseguimos reconhecer. Tudo isso porque não somos ensinadas a amar nós mesmas. 



Espero que vocês tenham gostado da crônica e não deixem de ir lá conhecer OSegundoCu, a página é permeada de textos maravilhosos e sempre fortes. Fico feliz de saber que ainda tem gente que escreve com a alma no nosso país e paralelamente triste de ver que essas pessoas, não recebem a atenção que merecem. 

Beijooos 

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